Um cronista do cotidiano, mistura de trovador e repórter, infernizou a vida de Salvador dos anos 40 aos 60. Batizado de José Gomes foi com a alcunha de Cuíca de Santo Amaro que se celebrizou como um dos personagens mais importantes da história recente da cultura baiana. Seus versos virulentos assustavam poderosos e gente comum, e não havia segredo guardado a sete chaves que escapasse do seu faro para escândalos, que tornava público na cidade através de cordéis. Estes foram, ao longo da vida, o seu ganha-pão, venal para uns, genial para outros, uma coisa, porém, ninguém nega: este personagem do século passado mantém uma atualidade singular, que não se insere em nenhum rótulo.
Com muita ironia Cuíca de Santo Amaro transformava fatos “sigilosos” em cordéis berrados nas ruas, oferecendo à população noticias que os jornais não publicavam. Para quem passava pelo Elevador Lacerda, Mercado Modelo ou pela Estação da Leste, entre as décadas de 1940 e 60, a cena era comum. Uma roda de pessoas com olhar atento, soltando gargalhadas. Umas davam sorrisinhos sem graça, outras passavam direto, apressadas, quase tapando os ouvidos. O grupo estava reunido para escutar as novas histórias do poeta-repórter mais famoso da cidade. Eram casos que falavam sobre quase tudo o que acontecia nas ruas, becos e até mesmo dentro das casas da província da Bahia e também nas cidades do interior do estado. Ele transformava em versos acontecimentos do Brasil e do mundo. Tudo com muita ironia e língua afiada. Amado por uns, odiado por outros, tinha uma predileção especial pelo que era mantido em sigilo, um faro aguçado para descobrir o que estava escondido. Registrando como José Gomes, foi como o nome de Cuíca de Santo Amaro que se celebrizou.
Ouvir seu nome era sinal de temor para muita gente, afinal ninguém sabia o estava por vir quando Cuíca de Santo Amaro desfilava pelas principais ruas de Salvador vestido com seu fraque bem passado, flor na lapela e chapéu-coco, declamando seus versos de poeta trovador. Trazia debaixo do braço mais uma edição de suas revistas de cordel e gritava com voz rouquenha o último escândalo ocorrido na chamada sociedade, para o delírio da platéia – geralmente tão pobre quanto ele – e desespero da família atingida.
O repórter baiano Odorico Tavares escreveu um artigo na revista O Cruzeiro, em 26 de outubro de 1946, sobre Cuíca. “O seu forte era o comentário sobre fatos do dia, o cotidiano baiano que explorava com crueldade sem limites. Ai de quem caísse no seu desagrado: em dois tempos, contava a sua historia em versos, imprimia, arranjava do Sinésio (Sinésio Alves, ilustrador de capas de folhetos do cordel baiano da época e colega de travessuras do Cuíca) o desenho adequado para as capas e largava brasa. Um inferno para as suas vitimas, um gozo para o público que cercava e o ouvia, às gargalhadas”.
Não é à toa que ainda hoje é considerado por alguns estudiosos uma espécie de Gregório de Matos sem gramática. Apesar de não ter estudado e não estar entre os melhores verificadores da literatura de cordel, Cuíca era a síntese do trovador-repórter popular. Forneceu um relato picante e interessante do seu tempo, um retrato folclórico-popular da vida baiana, através de centenas de folhetos, impressos semanalmente durante 25 anos. Para perceber a importância e o destaque que um cordelista podia ter naquele tempo é preciso perceber que o contexto era outro. Quando Cuíca começou a trabalhar como repórter autônomo, Salvador era uma cidade que tinha poucos, mas influentes jornais dominado por grupos políticos. Isso numa época em que não existia televisão e eram escassas as emissoras de rádio, como explicou em entrevista ao jornal Correio da Bahia, o jornalista, pesquisador e conselheiro do tribunal de Contas dos Municípios, Paolo Marconi, no livro Cuíca de Santo Amaro – O último Boca do Inferno. “Optando por disputar o mercado em faixa própria, (Cuíca) lançava mão de assuntos geralmente não explorados pele imprensa tradicional, que preferia ficar ao largo, porque feriam a moral e os bons costumes vigentes, seus interesses políticos, econômicos e de classe. Espelhando-se na imprensa de seu tempo, ele não media conseqüências ao escrever e vender seus versos”, lembra Marconi.
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