Em uma sala misteriosa,
sem identificação nenhuma, Dayse Oliveira é a mulher por trás do Baralho do
Crime, ferramenta da Secretaria da Segurança Pública que divulga os bandidos
mais procurados do estado.
Não chega a ser uma
tenda cigana, mas o lugar é cercado de mistérios. Quem passa pela rua mal sabe
o que acontece ali dentro. Somente os que marcam horário são prontamente
anunciados na portaria. “Aguarde um minuto que dona Dayse vai atende-lo”, diz
uma funcionária.
A mulher, então, vem
receber o visitante. Usa óculos, um anel de pedra azul e unhas prateadas. A
“consulta” ocorre em uma saleta no 1º andar. “Sente-se, meu filho”, diz ela,
uma senhora simpática, que, ao iniciar a conversa, logo dispõe o jogo de cartas
sobre a mesa.
Diferente do que parece,
Dayse Oliveira, 62 anos, pode ser tudo, menos uma vidente. Em vez de
adivinhações, confia em dados precisos. Em vez de futurologia, pesquisa
diariamente o passado e o presente de gente perigosa. No máximo, dona Dayse é
uma cartomante da bandidagem.
É ela a responsável por
organizar o chamado Baralho do Crime, criado em 2011 pela Secretaria da
Segurança Pública (SSP). Ferramenta utilizada para localizar fugitivos de alta
periculosidade, não por acaso fica a cargo da Superintendência de Inteligência
(SI).
Critério
Funcionária do SI há dez
anos, Dayse escolhe as cartas que vão compor o jogo com quatro naipes e 52
peças diferentes. Mas, definitivamente, não faz isso sozinha ou de forma
aleatória. “Esse é o tipo de baralho que não se pode misturar as cartas”,
observa. Ou seja, não é qualquer valete ou dama que vai fazer parte do baralho.
A busca pelos critérios
que vão determinar uma nova carta é incessante. A primeira decisão é não
colocar meramente suspeitos. Entram no jogo apenas reis da ilegalidade, como
indiciados, alvos de inquéritos concluídos e mandados de prisão em aberto,
além, claro, de condenados.
Cumprido um desses
requisitos, é preciso seguir mais alguns passos. O primeiro é buscar
informações com o delegado responsável pelas investigações, que disponibiliza
histórico e fotos do bandido. Depois são levantados mandados de prisão na
Coordenação de Polícia Interestadual (Polinter) e confirmada a identificação no
Departamento de Polícia Técnica (DPT). Aí resta conferir o andamento dos
processos na Justiça e confirmar na Secretaria de Administração Penitenciária
(Seap) se o sujeito realmente não está preso.
“Já aconteceu de a gente
preparar a carta e, na última etapa, descobrir que o sujeito estava no
presídio”, admite Dayse. Sua função é justamente monitorar as 52 cartas do
baralho. “E faço isso sem nenhum julgamento ético ou moral. Me baseio em
informações. Meu objetivo é puramente ajudar a polícia a encontrar esses
cidadãos”, destaca.
Desde que foi criado, há
dois anos e meio, o baralho já passou por 52 trocas. Portanto, 52 ases da
criminalidade foram presos ou morreram em confronto. “Claro que tiveram os
casos de suspensão de mandados ou absolvições, mas são raros. Uma vez, por
questão de cinco dias, não imprimimos uma carta de um sujeito que havia sido
absolvido”.
Nem todas as cartas, no
entanto, foram trocadas. Luan Barreto Almeida, o 5 de Espadas, por exemplo,
está lá desde a criação do baralho, em 2011. Ele atua em Alagoinhas.
Naipes
Mas, como classificar a
periculosidade de determinado fugitivo? “Isso é discutido com os delegados e
com meus superiores. É claro que um homicídio é mais grave que dez roubos, por
exemplo. Traçamos os perfis de cada carta e chegamos a um denominador comum. Às
vezes, a gente leva uma semana para traçar o perfil de um indivíduo”, explica.
Se abrir vaga no
baralho, no caso de uma prisão ou morte, basta cavar uma carta na longa lista
de criminosos. “Estou sempre recebendo ligações de delegados, de policiais e
até de juízes para incluir alguém”, conta. Houve casos em que se abriu várias
vagas de vez, uma canastra de bandidos presos. “A polícia capturou três ou
quatro do baralho. Um dia para comemorar”, avalia.
Buracos
Entrar para o Baralho do
Crime significa ter seu rosto exposto todos os dias para milhares de
internautas que acessam o site do Disque Denúncia. É por isso que alguns ficam
com receio de serem jogados no buraco. “Tivemos três casos de foragidos, que,
ao serem colocados no baralho, se entregaram à polícia. Estavam com medo de
morrer”, conta dona Dayse.
Apesar de alguns
questionamentos por conta da exposição, o Baralho do Crime virou referência.
“Na Inglaterra e EUA eles colocam imagens de suspeitos em outdoors. A gente
ainda toma todas as precauções possíveis. Só colocamos bandidos perigosos”,
argumenta.
“Recebo visitas de
delegados e agentes federais de todo o país. Já recebi o FBI aqui. Nosso
trabalho é muito sério e a eficácia é comprovada”, garante.
Dona Dayse não é policial
e muito menos delegada. Formada em relações públicas, não é advinha ou tem bola
cristal. Não devolve o amor de ninguém em uma semana, mas está convicta de que
ajuda a tornar a sociedade mais justa e pacífica.
Caráter lúdico é chave
do sucesso do Baralho do Crime para a polícia
O homem que inventou o
Baralho do Crime, o secretário da Segurança Pública Maurício Barbosa é, claro,
entusiasta do projeto. Ele admite que a ideia não é tão original assim.
Inspirou-se em um modelo americano.
“O Baralho do Crime foi
lançado para que a população pudesse ajudar as forças de segurança com
informações sobre criminosos procurados. Criamos o jogo de memorização
inspirado numa iniciativa do Exército americano e, assim, temos um mecanismo
importante, lúdico e com resultados positivos”, diz o secretário.
“Mas nosso baralho é
muito mais completo que o americano. Enquanto eles criaram um jogo com algumas
cartas, sem naipes, nós lançamos um baralho completo, com todas as cartas
conhecidas popularmente”, explica dona Dayse. A parceria com alguns delegados é
fundamental. O diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa
(DHPP), Jorge Figueiredo, é um dos mais beneficiados com a ferramenta.
“O baralho tem trazido
muitos resultados positivos para todos os departamentos. Nós, especialmente,
prendemos alguns homicidas depois que seus rostos foram parar no jogo”,
ressalta. O próprio superintendente de inteligência, Rogério Magno Medeiros,
atribui ao caráter lúdico a eficácia do baralho. “As cartas e seus significados
são bem populares. Por isso o sucesso do projeto”.
Baralho hoje só existe
online, no site do Disque Denúncia
Apesar das cartas
impressas que coloca sobre a mesa, atualmente, Dayse Oliveira, que administra o
baralho e suas cartas, conta apenas com a ferramenta virtual para ajudar a
localizar os bandidos, uma vez que hoje ele só existe no site do Disque
Denúncia e não é mais impresso.
O Baralho do Crime é
apenas uma das ferramentas do Disque Denúncia. Com seções como Procurados, Desaparecidos e o próprio baralho, o site já tem mais de 21 milhões de acessos
acumulados desde 2005. Pelo telefone também é possível fazer uma
denúncia. Na capital, através do 3235-0000 e no interior pelo 181.

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